O novo episódio da Síria

De vez em quando, o mundo se esquece da Síria – o que é normal, pois o conflito se alastra por dois anos e meio e já aprendemos a conviver com ele. Porém, esporadicamente, quando surgem novidades, o assunto volta a dar as caras na imprensa e na diplomacia internacional. Dessa vez, foi o ataque com armas químicas do dia 21 de agosto que ressuscitou a gravidade da situação no país.

À discussão sobre qual lado teria usado armas químicas (rebeldes ou regime), com palpites de especialistas e mais dúvidas do que respostas, seguiu-se outra discussão ainda mais complexa: intervir ou não intervir.

O ataque, que matou 1,4 mil pessoas, entre mulheres e crianças, foi sem dúvida um atentado contra a humanidade e daí vem o nosso dever moral de responder a ele, como argumenta Diogo Bercito no seu Orientalíssimo blog. A ONU, instituição encarregada de agir em caso de violação de direitos humanos, no entanto, está paralisada pelos vetos russos no Conselho de Segurança. E os Estados Unidos, mais uma vez, se propuseram a interferir – bombardeando instalações militares do regime com mísseis Tomahawks, mas sem o objetivo de derrubar Assad, segundo descreveu o presidente – e fizeram o mundo relembrar as trágicas intervenções no Afeganistão, Iraque e Líbia.

José Antonio Lima escreveu na Carta Capital: “No discurso de sexta 30, Kerry [o secretário de Estado dos EUA] fez uma firme defesa da ação por parte dos EUA e da comunidade internacional, lembrando – com razão, diga-se – que o uso de armas químicas constitui um ‘horror inconcebível’ e que Assad é um assassino. Apesar da veracidade das palavras de Kerry, elas servem para retratar seu país como um ator benévolo e esconder a hipocrisia que está na natureza da política externa norte-americana”. Para ele, o interesse americano passa longe da defesa da humanidade e tem a ver com seus jogos de poder no Oriente Médio.

Assad e Ban Ki-moon conversam em charge espanhola (Kap/Cartooning for Peace)

Assad e Ban Ki-moon conversam em charge espanhola (Kap/Cartooning for Peace)

De qualquer forma, um ataque americano só se tornaria realidade após a aprovação do Congresso, dando oportunidade para que a Rússia agisse nesse meio tempo. O país, aliado de Assad, por uma série de razões explicadas por Guga Chacra, defende que o ataque químico foi feito pelos rebeldes. O presidente Vladimir Putin escreveu aos cidadãos americanos no New York Times que um bombardeio contra a Síria estenderia o conflito aos países vizinhos e desencadearia uma onda de atentados terroristas.

Retomando as tentativas de uma solução diplomática, a Rússia propôs à Síria que entregasse suas armas químicas para evitar o ataque americano, o que foi aceito pelo país, conforme explica a matéria do El País. A ONU comunicou que o regime de Assad solicitou sua adesão ao tratado internacional contra armas químicas, acordo nunca antes assinado pelo país. Os Estados Unidos, por sua vez, pensaram duas vezes sobre a intervenção militar e voltaram a negociar ontem, em Genebra, um acordo com a Rússia sobre a guerra síria. Os países concordaram em retomar os esforços para realização de uma conferência de paz.

Guga Chacra compara o cenário do conflito sírio antes do uso de armas químicas, sob a ameaça de ataque militar americano e, agora, o novo cenário após a proposta russa. Sem dúvida, a conjuntura é melhor agora: ONU volta a ser ativa na resolução do conflito; Rússia e EUA dialogam; possibilidade, ainda que complicada, de o regime de Damasco abdicar de suas armas químicas de forma pacífica; embora Assad ainda tenda a seguir vencendo a guerra com armas convencionais e apoio do Hezbollah, Iraque e Irã.

Se diplomaticamente, a situação melhorou, a crise humanitária continua e não recebe a devida atenção como denuncia Philippe Bolopion, porta-voz da Human Rights Watch em Nova York, à BBC Brasil. A máteria diz ainda:

“A ONU calcula que o número de mortos desde o início da guerra civil síria supera 100 mil – mais de 1,4 mil só nos ataques com armas químicas no dia 21 de agosto, segundo os EUA – e cerca de 2 milhões de pessoas se aglomeram em campos de refugiados nos países vizinhos. Apesar disso, até julho, a agência da ONU para refugiados, Acnur, havia recebido apenas 30% dos US$ 4,4 bilhões em ajuda requisitados junto aos países membros para prestar auxílio no conflito”.

Dicas

Guga Chacra explica a guerra síria em 15 textos,

Os correspondentes da Folha de São Paulo no Oriente Médio, Diogo Bercito e Joel Silva, visitam um campo de refugiados sírios na Jordânia.

Analistas mostram como o conflito na Síria afeta os países vizinhos.

Brasil dificulta a vinda de refugiados sírios para o país.

Mais charges sobre a Síria.

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