Mais do mesmo

Todo mundo que volta da Palestina conta a mesma história: o muro absurdo, o apartheid, a ocupação, os militares israelenses, os checkpoints. Todos viram diante de si exemplos de como o conflito israelopalestino se manifesta no cotidiano – fora das altas esferas políticas e das assembleias da ONU.

Documentários mostram as vilas palestinas perdendo terras com a construção do muro, protestando e recebendo gás lacrimogêneo a cada semana por causa disso. Os internacionalistas vão lá, tiram foto do muro, presenciam as ocupações, denunciam as prisões arbitrárias e tentam proteger os palestinos dos abusos que sofrem em uma terra onde a lei não é a mesma para todos.

Mas eu fico me perguntando o que há além disso. O que há além do muro? O apartheid não pode ser a única característica da sociedade complexa que habita aquela região. Como são as pessoas?  O que pensam sobre política? O que conversam nas mesas de bar? O que as crianças aprendem na escola? E o turismo? Como é o lazer da população? Como é a balada?

Será que esse conflito é tão preponderante em relação a todos os outros aspectos da vida humana a ponto de não sabermos muito mais sobre Israel além de “existe um muro que rasga a terra”? Será que o resto não importa? Será que tem resto?

Para uma pessoa relativamente iniciada nas questões do Oriente Médio, ver mais do mesmo a cada vez que o assunto é Palestina me incomoda. Isso me deu – nunca fui tão honesta – certa preguiça do conflito israelopalestino e acabei me voltando para outros países, como o Egito, por exemplo.

Só que aí, em pleno século XXI, eu me deparo com certas coisas que me fazem repensar tudo isso.

A primeira delas é um artigo de Hélio Schwartsman na Folha de São Paulo que compara o número de prêmios Nobel recebidos por judeus (187) e por muçulmanos (10) e explica o fenômeno pela diferença biológica (sim, biológica) entre esses grupos de pessoas.

A segunda é o comentário de um cidadão no facebook sobre como o único objetivo do muro é proteger as pessoas de bem dos terroristas que existem ao redor. Para demais cidadãos que pensam dessa maneira (não são poucos, imagino), recomendo dois documentários “Budrus” e “Cinco câmeras quebradas”. Assistam e procurem grupos terroristas palestinos tentando atacar cidades em Israel. Já adianto que, em vez disso, você encontrará vilas de agricultores que perderam suas oliveiras para o outro lado do muro e são presos e mortos por protestar.

Por último, a incrível entrevista do Estado de São Paulo com Zeev Elkin, o segundo na hierarquia diplomática israelense, atrás apenas do próprio Binyamin Netanyahu. Para ele “Existe uma discussão sobre a condição jurídica dos assentamentos, uma vez que Israel não ocupou a região, pois não havia um Estado lá”. Mais um trecho:

“Pedir o fim de construções israelenses em território palestino é uma forma de antissemitismo?
Claro que sim. Imagine isso em outro lugar: integrantes de um grupo proibidos de construir casas. Todos diriam que é uma decisão racista”.

Quer dizer, se ainda tem gente que pensa assim, é porque a história do muro tem que ser repetida mais muitas vezes. O que é bem aborrecido pra quem já entendeu a realidade. É por isso que todo discurso de resistência é maçante e quem defende uma causa é visto como uma pessoa chata que só fala a mesma coisa. Gays, mulheres, negros, índios, nordestinos estão defendendo o mesmo discurso há anos e continuam sendo hostilizados, pior, agredidos na rua. Por isso, é preciso reiterar, embora seja extremamente entediante para quem ouve e cansativo para quem repete.

Contudo, não estou convencida de que Palestina e Israel se encerram nisso. Ainda tenho curiosidade em saber o que há além do muro. Espero que a sociedade permita que a pauta mude e eu finalmente possa descobrir.

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