No Egito, ela voltou

Eu acreditei no que vi do dia 28 de junho ao dia 5 de julho no Cairo. Não tinha como não acreditar que a mudança era para melhor. Todas aquelas pessoas que circulavam pela cidade e carregavam cartazes e dizeres contra Morsi, elas pareciam saber o que estavam fazendo. O primeiro ano do então presidente não trouxe as melhorias que elas tinham pedido na primavera egípcia. Nada mais natural do que querer mudar. Iam à praça manifestar o seu descontentamento, mas com uma certeza de vitória e um quê de festa.

O problema era mudar para quê? Qual seria o novo governo? Como seria? Poucos egípcios souberam me responder isso. Fora a Irmandade, como analisa Clóvis Rossi, na Folha de S. Paulo, o outro grupo político forte do país são os militares. E eles surgiram das cinzas da Primavera para preencher esse vácuo. Para serem os grandes heróis que livrariam o povo do mal governo de Morsi. Depois do anúncio de que o presidente teria 48 horas para deixar o poder, as pessoas comemoraram. Aplaudiam os helicópteros que sobrevoavam a capital. O exército disse que estava ali para defender a população. “Exército e povo estão do mesmo lado”, se ouvia. No dia 3 de julho, vi caminhões de policiais cercados por pessoas muito felizes e agradecidas. O Egito tinha ganhado a Copa do Mundo. Não tinha como não acreditar, e eu acreditei.

Muitos não foram assim tão inocentes. Eu li em quase todos os jornais as críticas ao golpe de Estado, a um novo governo militar, à volta da ditadura que comandava o Egito desde a década de 1950. Mas não. Os egípcios não deixarão voltar aquilo que eles tiraram a muito custo em 2011, eles não vão anular sua luta política, eles sabem o que estão fazendo. “Mas, assim, por acaso, em uma suposição, se os militares não quiserem convocar novas eleições e devolver o poder?” “A gente volta para a praça”, foi o que me disseram.

Ah, então tudo bem. Um pouco receoso em relação ao futuro e com o cansaço de quem havia voltado à estaca zero, meu amigo egípcio mudou de opinião depois de uma volta no quarteirão. “A gente não sabe o que vai vir, mas estão todos felizes, olha. Não tem como não ficar feliz”.

Eu acreditei. Achei coerente o título de “golpe democrático” inventado para explicar aquilo. Diogo Bercito, correspondente da Folha no Oriente Médio, conseguiu explicar aqueles dias: “Há pouco mais de um mês, estive aqui para cobrir o golpe de Estado que depôs o islamita Mohammed Mursi. Durante o dia, me sentava com manifestantes da Irmandade Muçulmana na mesquita de Rabia al-Adawiya. À noite, eu caminhava nas beiradas do Nilo, com os olhos brilhando pelas luzes dos barcos. A cidade estava viva. A cidade parecia segura”.

Naquela mesma noite de 3 de julho, os militares fecharam os canais de televisão da Irmandade Muçulmana. Agora, depois do Ramadã, o país viveu a semana mais sangrenta da sua história recente – nem sei o número de mortos atualizado. Apoiadores de Morsi foram desalojados de seus locais de concentração à força. A imprensa estrangeira está sendo atacada por denunciar a violência do exército. Fecharam a Al Jazeera, o correspondente foi preso. Joel Silva, fotógrafo da Folha, levou um tiro de raspão. Hugo Bachega, repórter do O Globo, ficou detido por sete horas para prestar esclarecimentos. O governo fala em combate aos terroristas. Caos no Sinai.

Eu não acreditei que fosse possível, mas aquela ditadura voltou.

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