Terror e Tortura

No mundo contemporâneo, o terrorismo e o 11 de setembro não são de maneira alguma banais, mas, de alguma forma, é nos filmes que a gravidade e a dramaticidade dos fatos reais são esfregados em nossas faces.

Zero Dark Thirty é desses filmes que nos fazem lembrar e nos fazem temer. Os terroristas estão espalhados, os ataques não têm hora nem lugar. Por outro lado, a caça estadunidense emprega o horror da tortura e provoca a morte de inocentes. Afinal, quanto sofrimento vale a vida de um terrorista? Da mesma forma, quantas vidas valem o ideal desse mesmo terrorista?

A superprodução do filme revela a superprodução da CIA, com seus equipamentos, agentes, campos de concentração, tecnologia e tudo mais que se tem direito. A operação de guerra impressiona.  Acompanhando tudo de perto está Maya, uma jovem que defende seu instinto contra todos: “Osama bin Laden está naquela casa”, ela afirma segura. Casa essa encontrada graças a sua insistência e faro. Uma típica heroína de filme americano ou a verdadeira heroína da América, nesse caso.

No blog The Carpet Bagger do New York Times, encontramos as palavras de Nada Bakos, ex-CIA, que diminuem o brilho da protagonista.

“Muitas vezes, a inteligência eficaz – incluindo o esforço para encontrar Osama bin Laden – é o resultado de contínuos, coletivos esforços, que acendem momentos de intuição entre um grupo de peritos e processos, e não palpites individuais que compelem um esforço monumental”.

Ao contrário de sua personagem, Jessica Chastain é alvo de elogios e recebeu o Globo de Ouro de melhor atriz pela sua interpretação de Maya. O filme está indicado a cinco categorias do Oscar – edição, edição de som, atriz, roteiro original e também melhor filme.

Cena do filme Zero Dark Thirty

Cena do filme Zero Dark Thirty

Sobre os fatos daquele 1 de maio de 2011 na cidade paquistanesa de Abbottabad, obviamente há diferenças entre as cenas do filme e a realidade. Deixando os pormenores de lado, o final sabe-se bem qual é. No entanto, a busca, descrita em miúdos desde o começo,  vai delongando o enredo. Ainda assim, os olhos tensos não se distraem nem um segundo. Passam-se quase literalmente anos dentro da sala de cinema e, quando a tela finalmente se apaga, não é um alívio.

Por trás das telas
Autoridades americanas, senadores e agentes da CIA torceram o nariz para o filme. Não se trata de um documentário, mas foi feito com base em muita pesquisa, como salienta o roteirista Mark Boal.

Ainda que fosse um documentário, seria de se desconfiar que a trama não refletisse a exata realidade por se tratar de um tema intrincado e sigiloso. Para além das invencionices típicas de Hollywood, o filme foi duramente criticado pelas cenas de tortura, já que, ao relacionar a operação bem sucedida a essa prática, o filme estaria endossando o uso de tal método.

Logo nas primeiras cenas, um prisioneiro é torturado e acaba por revelar a identidade do mensageiro de confiança de Bin Laden. É localizando e vigiando esse mensageiro, que a CIA chega à fortaleza do terrorista em Abbottabad.  Na vida real, a casa foi encontrada graças a informações sobre o mensageiro conseguidas com presos de Guantanamo, o que nos faz desconfiar de que os métodos exibidos na ficção não sejam tão ficcionais assim.

De acordo com matéria do New York Times, a administração Bush tomou em 2002 a decisão de “recorrer a métodos que os Estados Unidos tinham evitado por décadas como ilegal”. Um relatório sobre os interrogatórios da CIA feito pelo Senado no ano passado concluiu que o tratamento brutal não foi “um componente central” na busca de Bin Laden. No entanto, a senadora democrata Dianne Feinstein afirma que o relatório é bem crítico e conclui que “o tratamento coercivo e abusivo dos detidos era muito mais generalizado e sistemático que pensávamos”. Para os republicanos, o relatório é incompleto. De uma forma ou de outra, fica a crítica bem apontada pelo jornal:

“Embora o presidente Obama condene repetidamente tais métodos – sua única aparição no filme é em uma televisão que mostra sua declaração de que a “América não tortura” – ele também declarou em sua posse que preferia “olhar para frente, não para trás”, e nunca houve um inquérito público oficial sobre a tortura e as questões que a cercam, como a sua eficácia, a sua base jurídica e como ela foi usada extensivamente”.

Cena do filme Zero Dark Thirty

Cena do filme Zero Dark Thirty

Michael J. Morell, diretor da CIA, disse que o filme exagera a importância dos interrogatórios coercitivos para conseguir pistas de Bin Laden e que, na verdade, foram usados vários outros métodos também.

Em resposta às críticas, a diretora Kathryn Bigelow disse que aqueles que trabalham com arte sabem que representar não é endossar. A diretora escreveu ao The Los Angeles Times, como conta o Huffington Post:

“Primeiro de tudo: eu apoio o direito de todos os americanos de criar obras de arte e expressar sua consciência, sem a interferência do governo e sem perseguição. […] Como um pacifista ao longo da vida, eu apoio todos os protestos contra o uso de tortura […] Mas eu me pergunto se alguns dos sentimentos expressos alternadamente sobre o filme não poderiam ser mais apropriadamente dirigidos para aqueles que instituíram e ordenaram estas políticas dos Estados Unidos do que para um filme que traz a história para a tela.”

Veja também | Opera MundiRelatório de ONG mostra que os EUA tiveram a cooperação de 54 países em operações de sequestro e tortura de suspeitos de terrorismo.

Cartaz do filme Zero Dark Thirty

Cartaz do filme Zero Dark Thirty

Ficha técnica
Zero Dark Thirty, 2012
Direção: Kathryn Bigelow
Com Jessica Chastain, Joel Edgerton, Chris Pratt
Site: http://zerodarkthirty-movie.com/

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