Sobre Futebol e Barreiras | Arturo Hartmann

Arturo Hartmannn

Arturo Hartmann (Enrico Spaggiari)

Cobrindo o mundo árabe a distância desde 2005, o jornalista Arturo Hartmann*, 30, decidiu viajar sozinho no fim de 2009 para conhecer e entender de perto a situação de Israel e dos territórios ocupados palestinos. Da viagem nasceu a ideia de um documentário que, a partir do futebol, pudesse discutir questões difíceis, como identidade nacional, em uma sociedade dividida e pautada pelo conflito. “Existe uma urgência por se discutir esses temas na sociedade israelense”, diz Hartmann. Em entrevista ao Olhares al-Árabe, o jornalista fala das dificuldades que encontrou junto aos colegas durante a produção de Sobre Futebol e Barreiras e traça um panorama realista da situação de israelenses e palestinos.

Como surgiu a ideia do documentário?
Arturo Hartmann: A ideia toda do filme surgiu durante minha viagem para Palestina, entre dezembro de 2009 e março de 2010. Eu estava num bar em Bethlehem (Belém), no sul da Cisjordânia, depois de uma atividade política promovida pelo Alternative Information Center (AIC) e eu e outros amigos estávamos assistindo a semifinal da Copa da África entre Egito e Argélia. Todos os palestinos estavam torcendo para a Argélia. Meu amigo palestino disse que eles torciam contra o Egito por questões políticas, por que eles estavam“contra os palestinos” – (Hosni) Mubarak ainda governava o país e colaborava com o Israel no cerco à Faixa de Gaza. Ele me falou: “você tem que vir aqui durante a Copa do Mundo”. Ai já surgiu a ideia embrionária de juntar a questão da identidade nacional com a Copa do Mundo. Eu conversei com o Lucas (Justiniano, um dos diretores), que abraçou a ideia e conversou com o João (Carlos Assumpção) e o José (Menezes), os outros dois diretores, e então começamos a tocar o projeto. Eu voltei para o Brasil e nós quatro planejamos tudo entre março, abril e maio de 2010 e em junho embarcamos e as filmagens começaram.

Quais foram as principais dificuldades enfrentadas durante a produção do filme?
AH: O lugar mais difícil de filmar foi em Hebron. Não dava para filmar perto de checkpoints, tínhamos que esconder a câmera, conseguimos só algumas imagens… Foi mais complicado. Soldados nos perguntavam o que estávamos fazendo, ele quis ver o que estávamos filmando. O fato de filmarmos com uma 5D (câmera fotográfica que também grava em alta definição) ajudou porque conseguíamos disfarçar. A questão mais difícil, na verdade, talvez seja a própria discussão do filme.

Como foi abordar um assunto tão complexo, a identidade nacional, num contexto delicado como é o do conflito?
AH:
O futebol ajudou muito. Foi também por isso que escolhemos essa época e esse tema, porque o esporte funciona como pano de fundo e nos ajuda a entrar na discussão com as pessoas, principalmente com os israelenses. Os palestinos são mais abertos à discussão, por motivos naturais, eles precisam contar sua história, mostrar por o que eles passam, eles precisam discutir a realidade deles. Os israelenses estão mais na defensiva, pelo próprio fato estarem ocupando. Os israelenses estão numa posição superior em relação aos palestinos, eles estão oprimindo, ocupando, eles têm o controle da situação. Quando se tem o controle da situação, quanto menos se falar sobre isso, melhor. Então, nas primeiras entrevistas fomos sentindo que tipo de pergunta podíamos fazer, se falaríamos sobre a Nakba (A Catástrofe, em árabe, termo que designa os desdobramentos após a criação do estado de Israel em 1948), sobre a ocupação, etc. As pessoas que aparecem no filme foram as que acabaram se abrindo, que toparam a discussão, que, digamos, estão num estágio de pensamento e abertura mais avançado.

Podemos dizer que os entrevistados do filme, nesse sentido, representam um grupo mais “politizado”.  Eles representam uma minoria na sociedade israelense?
AH:
Sem dúvida. Numericamente, eles representam uma minoria, que não tem influencia política, não tem partidos que defendam sua posição. Talvez alguns membros do Knesset (parlamento israelense) que possam até defender esse tipo de posição, mas eles não têm relevância a ponto de influenciar, por exemplo, uma ação do governo. Mas, por outro lado, esses personagens trazem discussões que importam ao conjunto da sociedade israelense e palestina. Um jornalista da comunidade judaica e que morou em Israel por sete anos viu o filme e disse que essas pessoas retratadas ali, na verdade, são uma maioria silenciosa. Existe uma urgência por se discutir esses temas na sociedade israelense, mas eles não o são. Exatamente por não haver um sustentáculo político para que essas pessoas possam falar abertamente, porque muitos que falam, são ativistas, podem ser perseguidos pelo governo israelense, com o corte de fundos para determinada organização onde atuam, por exemplo. Então, são temas urgentes que muita gente gostaria de discutir, mas que não se discute, ou por falta de apoio ou por medo. Muitos preferem se alienar, se jogar num espaço onde elas nem apoiam, nem criticam as ações do governo e seguem suas vidas em Tel Aviv, Haifa… Então, a discussão dos personagens do nosso filme acaba sendo em si uma discussão legal sobre o atual estágio político da sociedade israelense.

A ideia inicial do filme sofreu alterações durante as gravações e a produção em si?
AH:
A ideia sempre foi discutir a identidade nacional. A partir disso, nós elencamos temas que consideramos essenciais para pautar a discussão como a Nakba, o Holocausto, a ocupação e suas consequências, a própria questão do “Estado judeu”, porque tem que ser judeu e quais os problemas de ele ser assim, etc. Mas a partir do que os entrevistados falavam, o filme também foi sendo pautado.  Nós perdemos o controle ali, o que eu acho incrível. Nós chegamos lá com uma proposta e a partir do que encontramos na realidade, ocorreu o diálogo.

Da esquerda para a direita, os quatro diretores: Arturo Hartmann, João Carlos Assumpção, José Menezes e Lucas Justiniano.

Da esquerda para a direita, os quatro diretores: Arturo Hartmann, João Carlos Assumpção, José Menezes e Lucas Justiniano (Adilson Gomes)

Um das figuras mais interessantes do documentário é Zahi Armaly, jogador de futebol palestino-israelense que jogou pela seleção de Israel na década de 1980 e até hoje é um ídolo nacional. Como foi discutir a questão da identidade nacional com ele?
AH:
Foi incrível. Até porque nele, no próprio Zahi, residem várias das contradições que nós estávamos abordando, especificamente em relação aos palestinos que vivem em Israel, que têm o passaporte e vivem como cidadãos. Os israelenses os chamam de árabes-israelenses e os palestinos os chamam de palestinos de 1948. O fato é que o Zahi era um baita jogador de futebol e por ter essa cidadania israelense, não podia jogar por outros países. Mas ele queria exercer a sua profissão, sua paixão, que era jogar futebol. Então, ele decidiu jogar pelos clubes israelenses e jogar pela seleção de Israel, o que é o mais contraditório. Para nós isso era muito significativo, porque ele estava vestindo a bandeira de Israel. Quando se veste a camisa de uma seleção, você está representando aquele país. E o Zahi estava e o fez de uma maneira incrível. Mas não pela seleção, foi por ele mesmo. Ele queria ser o melhor jogador. Até hoje o cara é um ídolo, porque ele sempre jogou muito bem, mas nunca deixou de afirmar sua posição política, nunca deixou de falar da minoria palestina dentro de Israel. Para nós foi incrível poder discutir isso com ele e também repercutir sua história com outros palestinos que entrevistamos.  Perguntamos para eles o que significava o fato de um palestino jogar pela seleção israelense, se ele deveria jogar mesmo ou deveria ter recusado, etc. E no geral as pessoas diziam que o Zahi estava certo, que foi importante ele ter jogado. Isso exemplifica como é complicada a situação desses palestinos que vivem em Israel. Existem várias nuances em relação a esse grupo – você tem caras que são super assertivos politicamente, que negam a existência de Israel, lembrando da expulsão dos pais, dos avós em 1948… E eles continuam sendo palestinos, continuam tendo uma cultura árabe e, dentro desse Estado judaico, são considerados cidadãos de segunda classe. Outros preferem a alienação, vão viver em Tel Aviv, longe da política. Mas mesmo essas pessoas que escolhem esquecer a luta política, em algum momento, são confrontadas pelo fato de viverem num Estado judaico que não os considera cidadãos. E em alguns momentos, eles também se levantam. Então, a discussão com o Zahi foi basicamente essa – o que significa você representar Israel e, ao mesmo tempo, não ser um cidadão. Ele vive uma normalidade de jogar, de ter uma profissão popular e pela qual, provavelmente, muitos israelenses o admiravam, mas de, ao mesmo tempo, assertivamente colocar que ele não cantava o hino porque aquela seleção não representava nada para ele.

Quais são as principais barreiras para esses palestinos que vivem em Israel?
AH:
A primeira é o próprio fato de o Estado ser judeu. Então, de cara, você cria um cerne identitário que por mais que esse cidadão palestino tente, ele não se identifica. O resto é tudo uma consequência disso. Então, existe uma série de leis que o Knesset passa sob o pretexto de proteger a harmonia do Estado.  Palestinos de Israel, por exemplo, não podem casar com palestinos da Cisjordânia. Se um palestino-israelense quiser casar com alguém da Cisjordânia, ele deve deixar Israel. Há também a lei da Nakba, que proíbe qualquer memória ou celebração da data, porque é tabu discutir o tema. Eles tentaram criminalizar isso, mas não conseguiram. Ainda assim, hoje, organizações que lidam com as questões referentes à Nakba não podem receber fundos estatais, ou seja, há a tentativa de cortar pelo lado econômico. Existem outras barreiras econômicas, como por exemplo, o orçamento de educação e infraestrutura, que é distribuído de maneira desigual, dando preferência para vilas e escolas judaicas. O serviço militar, que seria compulsório para todos jovens israelenses, é restrito para maioria dos palestinos, que ou são impedidos de servir ou boicotam. E para conseguir alguns empregos, você precisa do certificado de conclusão do serviço militar. Para os palestinos, isso não vai acontecer, então essa parcela da população só vai ter acesso a empregos de menor remuneração. Em empresas de alta tecnologia, existe uma porcentagem ínfima de funcionários palestinos, assim como no funcionalismo público. Então, cria-se uma série de barreiras que afeta muito a vida desses palestinos. Na vida pessoal, profissional, é todo um desenvolvimento que é limado, de maneira muito sofisticada – o governo não fala abertamente sobre isso, mas a prática é essa.

Fazer o filme mudou alguma percepção sua em relação à questão palestina?
AH:
O mapa do conflito que nós temos na cabeça de longe se aprofunda e ganha nuances quando estamos lá. Tudo contribui – estar em Tel Aviv e conversar com um israelense, falar sobre o exército e como ele contribui para construir a identidade dessas pessoas ou estar em Hebron, naquela situação super dramática, com o exército ocupando a cidade, mas em algum momento um palestino te dá uma noção de normalidade. Ele tenta se adaptar. Você tem que estudar, fazer compras, comer, viver em família, viver entre amigos dentro desse labirinto da ocupação. E eles aprendem e vivem em certa normalidade. Isso que é o mais chocante para quem está de fora. Então, o que o documentário fez para mim foi preencher essas lacunas que só podem ser preenchidas lá, vivendo lá. E é isso que o filme se propõe a fazer.

Uma das últimas falas do filme é do ativista palestino do Alternative Information Center, o Yasser. Ele fala que o conflito já está na “prorrogação”, nos momentos finais da partida, mas que o goleiro palestino não é muito bom. Você concorda?
AH:
Eu concordo. O goleiro, no caso, seria a Autoridade Nacional Palestina. Essa fala dele representa uma opinião de muitos israelenses inclusive, principalmente quando você fala com essa juventude mais secular, na faixa dos 30 anos, um pessoal mais novo, que está, de certa forma, desligado de alguma história. E o que o Yasser diz reflete uma decepção generalizada da população palestina em relação a seus líderes. É o fracasso de várias tentativas que foram feitas, decisões equivocadas, alguns vão dizer que o Fatah se vendeu. O Hamas, por outro lado, tem uma agenda que muitos palestinos não concordam. Além dessa descrença, há a tentativa de fazer algo novo, porque os palestinos estão muito cansados. Eles não aguentam mais viver naquela situação. E numa escala menor, os israelenses também vivem essa realidade, uma parte das pessoas está cansada, frustrada, decepcionada com os últimos governos israelenses com o pessoal do (Ariel) Sharon e, agora com a força que o (Benjamin) Netanyahu tem e a ascensão do movimento de colonos. Esses jovens começam a se questionar inclusive em relação ao projeto sionista – pensam “nós acreditávamos nele, mas o que deu errado lá atrás?” Eles não aguentam mais viver com medo, com governos que dizem que eles devem ter medo, que devem servir no exército, que é preciso ir à guerra… Há então um cansaço mútuo. Mas com um agravante no caso dos palestinos, porque a situação nunca melhora. A situação latente é sempre dolorida, opressora e, por tal, eles estão sempre prontos para se levantar.

*Arturo Hartmann é jornalista e historiador e, desde 2004, trabalha com questões relativas ao mundo árabe e ao conflito israelo-palestino. É um dos quatro diretores do documenPôster do filme (Reprodução)tário Sobre Futebol e Barreiras.

Sobre Futebol e Barreiras (110 min | 2011)
Direção: Arturo Hartmann, Lucas Justiniano, José Menezes e João Carlos Assumpção
Em cartaz no Cinesesc (Rua Augusta, 2075 ), de 18 a 24/01, às 19h10.

Colaborou para o Olhares Al-Árabe T.P.

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