Salvos pela ficção

Bazar em Teerã

Em certo momento de Argo, tudo o que o agente da CIA Antonio Mendez, personagem de Ben Affleck, queria era passar despercebido por aquele bazar no centro da cidade de Teerã, capital do Irã. O objetivo era conseguir driblar agentes do governo iraniano espalhados pelas ruas e a fiscalização cerrada do aeroporto até alçar voo para longe daquele país.

Já na vida real, tudo o que Ben Affleck, ator e diretor, quer é não passar despercebido na cerimônia do Oscar que ocorre em fevereiro. Ao que as circunstâncias indicam, isso não acontecerá: acaba de receber sete indicações ao prêmio máximo da Academia e ganhar duas estatuetas do Globo de Ouro para Melhor Filme de Drama e Melhor Diretor.

Baseado em fatos reais, a razão de ser do filme é nobre, já que retrata uma das maiores crises diplomáticas e até hoje é exemplo de colaboração entre países. Era novembro de 1979 e o Irã estava em crise política. O povo se revoltava contra o governo secular e repressor do Xá Reza Pahlavi, aliado dos Estados Unidos, e as tentativas internacionais de ocidentalização. O marcante episódio conhecido como Revolução Islâmica acabou por instituir o regime do aiatolá Ruhollah Khomeini. Pronto. Os iranianos ganhavam uma nação inimiga.

Foi durante essa ebulição política que uma invasão à Embaixada dos Estados Unidos por militantes revolucionários deixou 52 funcionários reféns. No entanto, seis diplomatas norte-americanos conseguiram escapar da confusão e se alojaram na casa do embaixador canadense Ken Taylor. Encurralados e perseguidos, eles viveram lá por meses, enquanto a Casa Branca tinha planos para resgatá-los.

Os seis reféns

Os seis reféns

A partir daí começou uma delicada operação. Um ataque militar seria arriscado demais e uma tentativa pacífica de negociação, impossível. Tarefa difícil. Tão difícil que só uma ideia mirabolante conseguiria a aprovação da CIA. Eis que o especialista em exfiltrações Tony Mendez sugeriu o plano: a gravação de um falso filme de ficção científica intitulado Argo e ambientado no deserto do Irã.

Contando com a ajuda de um produtor e um maquiador famosos, que conheciam a indústria hollywoodiana muito bem, Mendes entrou em ação – e só tinha 72 horas para conclui-la. Ele foi até o Irã e treinou os reféns para que incorporassem identidades novas, afinal cada um tinha agora uma função importante na produção do filme, de ator a roteirista. “Esse é o meu trabalho. Resgato pessoas. E nunca deixei ninguém para trás”, diz em um momento decisivo do filme.

A história só deixou de ser confidencial em 1997, quando o presidente Clinton prestou homenagem aos envolvidos. O filme tem uma pitada de metalinguagem por mostrar bastidores da produção cinematográfica, ainda que falsa, e pelos comentários irônicos que rondam esse meio. Ainda assim, a tensão acompanha o longa do começo ao fim. As possibilidades de falha e triunfo caminham lado a lado e tão rápidas quanto aquele avião prestes a decolar. Graças ao roteiro e à edição bem intrincados, tal ritmo confere a Argo uma dinâmica de ação leve e gostosa de assistir. A trilha sonora – que, inclusive, teve indicações ao Globo de Ouro e Oscar – também é favorável ao conjunto da obra. Além disso, logo no início, a contextualização narrada e ilustrada ajuda a entender um período complicado da História mundial, sem deixar o assunto sobrecarregado como nos noticiários atuais.

Fora das telas

A maré de boas críticas ao terceiro filme dirigido por Ben Aflleck, no entanto, foi freada pelo governo do Irã, que, além de acusá-lo de “anti-iraniano”, prometeu financiar um longa em retaliação à versão americana. Até nome já foi divulgado, “The General Staff”. Agora, é esperar a maior premiação do cinema e conferir as apostas da prévia que tivemos com o Globo de Ouro. Quem sabe até lá mais detalhes sobre o filme iraniano também não aparecem.

Argo, 2011 (original: Argo)
Direção: Ben Affleck
Com Ben Affleck, Bryan Cranston, John Goodman

Globo de Ouro de Melhor Diretor e Melhor Filme de Drama

Globo de Ouro de Melhor Diretor e Melhor Filme de Drama

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Uma resposta para “Salvos pela ficção

  1. Oi Giovanna, aqui é Sergio, seu ex-professor… Então penso haverem algumas “coisas” do filme que resumo abaixo.
    Ao olharmos para a atual conjuntura de incertezas, o filme ‘Argo’, de Ben Affleck, torna-se um importante componente na campanha de desinformação sobre as instabilidades no Oriente Médio. Trata-se de uma produção recheada de estereótipos que difamam o Oriente e os orientais (no caso, os iranianos), e reforçam o velho maniqueísmo hollywoodiano, baseado na “luta do bem contra o mal.

    Bjo.

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