Egito: a Revolução de 1919 e a Primavera Árabe

“As ruas do Egito e, por extensão, suas várias praças públicas, cafés, bares, teatros, mesquitas e igrejas foram os pontos centrais para a maioria dos eventos descritos neste capítulo.” (Fahmy, 2011)

Ziad Fahmy poderia estar descrevendo o movimento de massa que derrubou a ditadura de Hosni Mubarak em fevereiro de 2011, no Egito. Seu livro Ordinary Egyptians, no entanto, narra as cenas de outra primavera – a de 1919, quando um movimento nacionalista de massas dominou as ruas do Cairo.

A Primavera Árabe, por sua vez, foi uma série de manifestações de massa que se espalharam por países árabes como Tunísia, Egito, Líbia, Iêmen, Kuwait, Bahrein, Arábia Saudita, Jordânia, Omã, Iraque, Argélia, Marrocos, Irã e Síria. Nas ruas, a população clamava por melhores condições de vida. A queda de regimes autoritários era outra reivindicação que foi conquistada na Líbia, no Egito, na Tunísia e no Iêmen.

Protestos no Egito em 2011 (AP)

Protestos no Egito em 2011 (AP)

Esse “despertar” do mundo árabe, iniciado em janeiro de 2011 e que se estende até hoje – seja nos processos de transição no Egito ou na guerra civil da Síria – não pode, porém, ser visto como um acontecimento inédito ou isolado.

A história dos países árabes mostra que a insatisfação e as revoltas não são acontecimentos exclusivos da atualidade. Tomando o Egito como exemplo, pelo seu destaque regional em termos econômicos e geopolíticos, vemos que Cairo, a capital fundada em 116 a. C, já foi testemunha da Revolta de Urabi em 1879, da Revolução de 1919, das manifestações de 1936, do Movimento dos Oficiais Livres de 1952 e, finalmente, da Primavera Árabe em 2011.

Há de se observar, contudo, que a Revolução de 1919, em especial, se distingue como o movimento espontâneo que marca o estado moderno do Egito, com participação de diversos setores da sociedade, todos unidos em manifestações diárias pelo desejo de mudança. Entretanto, quase um século mais tarde, a Primavera Árabe assume esse protagonismo como o verdadeiro – e por que não único – turning point do mundo árabe. Esse deslocamento não é surpreendente em absoluto se considerarmos que os olhos do Ocidente se voltaram para o outro lado do mundo somente há pouco mais de 50 anos. Assim, é necessário resgatar esse movimento de 1919 que espelha e inspira a Primavera Árabe seja pelas aspirações semelhantes ou pela presença inabalável do povo nas ruas.

“Os egípcios são resistes; e agora estão prontos e capazes para fazer qualquer coisa
Seus feitos são de orgulho e eles vão fazer tudo para ganhar uma constituição
Nós somos os filhos dos faraós, ninguém pode contestar
Quando necessário podemos lutar com cassetetes, paus e até cabeçadas
Vida longa ao Egito! A melhor das nações, mãe dos valentes, de todos os tempos.
Uma vida nova! Um Egito novo! Nós ganhamos nosso propósito eterno.” (Fahmy, 2011)

Assim cantavam os egípcios na primavera de 1919. São palavras que cabem perfeitamente na boca daqueles que hoje vivem uma primavera sem data para acabar.

Em 1914, quando os britânicos já ocupavam militarmente o Egito há 32 anos, a população sentia as consequências de viver sob um governo cujo compromisso não era o desenvolvimento e o bem-estar local. A importância do Egito estava antes em sua localização estratégica, produção de algodão e, claro, no canal de Suez.

A situação vinha se agravando desde 1878, quando administradores britânicos assumiram o controle da dívida egípcia e, para saná-la, cobravam altas taxas da população egípcia miserável. Naquele ano, portanto, a população começa a se manifestar contra o Khedive Tawfiq, que governava o país, e sua dependência em relação aos europeus. Colonel Ahmad Urabi foi o líder desse movimento conhecido como Revolução de Urabi, que seria reprimido por tropas britânicas em 1882.

Esse panorama desfavorável permanece até a Primeira Guerra Mundial (1914-1919), quando a exploração do Egito se intensifica para financiar a participação britânica no conflito. E é nesse momento que os egípcios enxergam uma oportunidade para tomarem as rédeas de seu próprio país. O movimento nacionalista sentiu-se encorajado pelos discursos do presidente americano Thomas Woodrow Wilson.

“Os anos que antecederam a Primera Guerra Mundial também assistiram a fundação dos primeiros partidos políticos do Egito e o crescimento de uma imprensa moderna. Além das intrigas entre a corte e a administração colonial, um movimento nacionalista estava emergindo. Este triângulo de interesses opostos – a corte, o Alto Comissariado Britânico e a oposição nacionalista – dominaria a política do Egito por mais de três décadas.” (Alexander, 2005)

Revolução de 1919 (arquivos de memória do Egito da Biblioteca de Alexandria)

Revolução de 1919 (arquivos de memória do Egito da Biblioteca de Alexandria)

Com o fim da guerra, Sa’d Zaghlul Pasha, um membro do parlamento, juntamente com outros políticos, solicitou aos britânicos que enviassem uma delegação (wafd) para representar o Egito na Conferência de Paz de Versalhes, onde iriam pedir pela independência do país. Para alcançar esse objetivo, em 1918 o partido Wafd foi fundado e divulgava em panfletos seus ideais nacionalistas e de independência. A população, almejando o fim da ocupação britânica, apoiava a petição. De fato, como escreve Fahmy, o contexto internacional parecia propício para o pedido de independência.

“No Egito, acreditava-se que, por causa da economia egípcia e dos sacrifícios políticos durante a guerra, os britânicos deviam ao Egito pelo menos uma independência nominal.” (Fahmy, 2011)

Por outro lado, o interesse das potências europeias no Oriente Médio crescera: enfraquecidos pela Primeira Guerra Mundial, britânicos e franceses estavam determinados a manter sua presença na região. O Canal de Suez tinha uma importância estratégica fundamental, principalmente após as descobertas de petróleo na região da Mesopotâmia naquela época. Sendo assim, a resposta dos britânicos, liderados pelo Alto Comissário Reginald Wingate, à petição do partido Wafd foi exilar Zaghlul em março de 1919. Isso foi a faísca que faltava para que o povo tomasse as ruas em apoio ao partido.

Na manhã seguinte, uma manifestação composta principalmente de estudantes foi organizada no Cairo e protestos diários tomaram conta das principais cidades. A população destruiu as linhas de telégrafo e de trem. Em resposta, as vilas próximas às áreas destruídas eram queimadas.

Revolução de 1919 (arquivos de memória do Egito da Biblioteca de Alexandria)

Revolução de 1919 (arquivos de memória do Egito da Biblioteca de Alexandria)

Revolução de 1919 (arquivos de memória do Egito da Biblioteca de Alexandria)

Revolução de 1919 (arquivos de memória do Egito da Biblioteca de Alexandria)

De fato, a população, de forma nunca antes vista, interferiu para guiar seu país à independência. Em abril de 1919, Zaghlul e seus companheiros foram autorizados a representar o Egito em Versalhes. No entanto, a esperança de conseguir apoio da comunidade internacional foi frustrada, como narra Fahmy:

“No entanto, a libertação de Zaghlul e dos outros exilados, bem como a concessão da permissão para que os líderes Wafd viajassem para Paris para discutir o caso da independência do Egito, foram infrutíferos para os nacionalistas. Os britânicos conseguiram isolar diplomaticamente a delegação egípcia, os líderes Wafd foram esnobados pelos franceses e pelos americanos, que oficialmente aceitaram a continuação do protetorado britânico sobre o Egito. Grevistas, manifestações esporádicas e o transtorno geral continuaram por meses enquanto os britânicos começaram a negociar com uma liderança cada vez mais fragmentada do Wafd. Como as negociações fracassaram, em fevereiro de 1922 a Grã-Bretanha renunciou unilateralmente seu protetorado e Egito ganhou a independência nominal.” (Fahmy, 2011)

De modo semelhante, no caso da Primavera Árabe, também foram as condições econômicas desfavoráveis para a maioria da população que geraram a frustração que impulsiona o movimento. Em Whatever happened to the Egyptians, Galal Amin apresenta a mudança da estrutura social do Egito nos últimos anos. A proporção entre as classes baixa, média e alta era de 1:20:85 em 1952 e passou para 1:17:20 em 1990. Nesse ano, cerca de 30 milhões de egípcios, ou seja, 53% da população pertencia à classe baixa, 45% à classe média e 2% à classe alta.

“Uma boa parte da nova classe média do Egito, – certamente mais do que 50% e talvez cerca de 75% – consiste em o que pode ser classificado como “classe média baixa”, na qual a renda mensal por família não excede LE600.” (Amin, 2001)

Portanto, as condições já estavam dadas para que os egípcios protestassem. Não se pode atribuir como causa de um acontecimento das proporções da Primavera Árabe apenas os fatos que, na verdade, funcionaram como estopim, como as mortes de Mohammed Bouazzi, na Tunísia, e do ativista Khaled Said, no Egito.

Forças em movimento
Em relação a 1919, a distância temporal e a sistematização dos acontecimentos revela um cenário político simplificado, no qual identificamos três forças com interesses divergentes: a corte egípcia, o Alto Comissariado Britânico e o movimento nacionalista representado pelo partido Wafd.

No Egito de hoje, porém, ainda não é tarefa fácil identificar, separar ou classificar os interesses conflitantes. A população que foi às ruas, normalmente identificados como “os jovens revolucionários”, não teve organização e força política para eleger um novo presidente. Nas eleições do primeiro semestre de 2012, boa parte dos manifestantes não se sentiu representada por nenhum candidato.

Mohammed Morsi, o candidato do Partido da Liberdade e Justiça da Irmandade Muçulmana, foi quem ocupou o vácuo de poder deixado por Mubarak. Apesar das críticas pelo fato de que um islamita assumiu a presidência, essa era a movimentação esperada, já que a Irmandade é a única oposição política forte e organizada no país.

Manifestantes na Praça Tahrir em 2011 (Ahmed Jadallah/Reuters)

Manifestantes na Praça Tahrir em 2011 (Ahmed Jadallah/Reuters)

A Primavera de 2011 foi única em suas proporções, diferentemente da Revolução de 1919. Iniciadas na Tunísia, as manifestações ultrapassaram as fronteiras dos países e ganharam força entre a população que, a cada dia, descobria seu poder de expressar não somente o seu desejo de uma vida melhor, mas o seu direito de renovar um governo que não a representava. No entanto, o mérito do ineditismo cabe a 1919.

“Embora o objetivo declarado de independência ‘completa’ não tenha sido alcançado, a Revolução de 1919 foi um grande sucesso de outra maneira: pela primeira vez na história do Egito, um movimento de massas que abrangeu a maioria da população egípcia foi capaz de ganhar concessões perceptíveis da autoridade governante.” (Fahmy, 139)

Veja também:
A reportagem publicada no The New York Times sobre o nacionalismo egípcio e a busca pela independência em 1921

Referências:
ALEXANDER, Anne. Nasser. Haus Publishing, 2005.
AMIN, Galal. Whatever happened to the Egyptians?. The American University in Cairo Press, 2001.
FAHMY, Ziad. Ordinary Egyptians. The American University in Cairo Press, 2011.

Revolução de 1919 (arquivos de memória do Egito da Biblioteca de Alexandria)

Revolução de 1919 (arquivos de memória do Egito da Biblioteca de Alexandria)

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