Querido, leia

Capa do livro "Habibi", do cartunista Criag Thompson

Era a última das histórias em quadrinho que tinha ganhado de aniversário. Deixei por fim tanto por causa das 665 páginas quanto pela expectativa crescente. Outra história de Craig Thompson eu já tinha devorado – e Retalhos é muito bom mesmo – mas Habibi é um caso à parte. É uma obra de arte que te devora.

Parece que você senta para ler Habibi e acaba assistindo a um filme. A partir de minha parca experiência com graphic novels, me permito dizer que esse cara usa e abusa do espaço restrito de uma página em branco para dar um jato propulsor sônico à sua imaginação. Dos mosaicos que te fazem pensar “Sério que ele desenhou isso? Tipo, com as mãos mesmo?!” a sensações e sentimentos sutilmente expressos em seus traços preto&branco, eu me pegava observando cuidadosamente cada rabisco de cada desenho.

Cena do livro em que pensei "Por Allah, olha esses mosaicos"

Ao mesmo tempo, a história de Habibi te faz querer avançar nos capítulos sem parar. Duas vidas, de Dodola e de Zam, são o tronco para uma história que vai além de dois escravos fugitivos, mas cresce e absorve lendas e mitologias árabes – que Thompson tirou do clássico Mil e Uma Noites – e a beleza e o significado da língua árabe em si – inspirados no Corão.

A história não se passa em um local que poderia ser apontado exatamente em um mapa do mundo árabe, nem restrito a uma época em especial – é como se começasse em tempos arcaicos e terminasse na cidade contemporânea. Sexo e religião se misturam o tempo todo; o divino e o profano são faces da mesma moeda: o ser humano. Ser este que é retratado em diversos níveis sociais e colocado à prova em situações de amor e compaixão, de violência e perda.

No fim das contas, nada é triste ou feliz, mas simplesmente como acontece nas ruas. O marido, o sultão, o escravo, o eunuco, o favelado, o faminto, o explorador do meio ambiente, o poeta, o profeta, o amante, o pecador; o árabe. Thomspon levou sete anos para criar um “monumento do quadrinho moderno“, como diz a orelha do livro pesado. De fato, um monumento. Mas desses que você pode carregar nas mãos e babar com os olhos.

Dodola e caligrafia árabe

Visite o site de Craig Thompson e não deixe de checar as fotos publicadas pelo Guardian com os bastidores do processo de criação de Habibi.

Habibi
Autor: Craig Thompson. Tradução: Érico Assis.
Quadrinhos na Cia., 2011

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s