Problemas de transição

Percebe-se, então, que a democracia não é tão fácil. Em quase dois anos de um processo de transição turbulento e contestável, avanços ínfimos foram obtidos. Na mesma medida, quase não se vê a expansão dos direitos civil, político e social da população. Após a queda de um ditador, o poder passou a ser controlado por um Conselho Militar. Depois deles, sobe ao poder uma incógnita que ainda mantém uma relação dúbia com o povo. E agora, sem saber muito o que esperar, as pessoas vão às urnas deliberar sobre a nova constituição. Resumem-se assim os últimos dois anos do Egito.

E é assim, em meio a tantas controvérsias e incertezas, que a população egípcia começou a votar para as novas leis e parâmetros jurídicos que conduzirão o futuro do país. A primeira rodada do referendo nacional aconteceu no último sábado (15 ), sob o clima de rivalidade e tensão causado pelo grande embate entre apoiadores e opositores do atual presidente, Mohammed Morsi.

Apoiador de Mohammed Morsi levanta cópia da nova constituição durante comíssio pelo “sim” no referendo nacional (Mosaab Elshamy/Al Jazeera )

Como era de se esperar, a votação veio acompanhada de protestos. Já na sexta-feira (14), a Frente para Salvação Nacional, uma coalizão formada por grupos oposicionistas, organizou atos em frente ao palácio presidencial e na Praça Tahrir, no Cairo, pedindo que o povo votasse “não” no referendo. A partir da última segunda-feira (17), líderes opositores têm convocado o povo a protestar novamente no Cairo e em outros lugares. Os grupos contrários ao atual governo alegam que houve irregularidades e violações durante a primeira etapa do referendo para a nova constituição. Além disso, a Frente para Salvação Nacional exige que a votação seja cancelada e que Morsi negocie com os oposicionistas. Apesar dos protestos, a nova constituição foi aprovada na primeira parte do referendo nacional.

diferenças, no entanto, entre os protestos contra Mohammed Morsi e os contra Hosni Mubarak. Enquanto no ano passado o ditador era atacado de forma unânime pela maioria absoluta da população, este ano o país não está unido contra o presidente. Apoiadores e opositores estão espalhados e divididos por todo país, inclusive entre as diferentes classes sociais. A dúvida sobre Mohammed Morsi e suas muitas faces persiste. Com um ranço de autoritarismo em muitas de suas decisões e escolhas, o governante provoca dúvidas em relação à efetividade de seu mandato para a transição democrática. O principal problema é que, sem um conjunto de leis em vigor, as decisões de quem está no comando tornam-se cada vez mais arbitrárias e a disputa de poder fica cada vez mais acirrada e desleal.

Em meio a todo esse rebuliço, um aspecto tem se mostrado cada vez mais sólido: a população teme que a nova contituição dê muita ênfase à Lei islâmica. O que se percebe é que os egípcios querem um foco maior em direitos e liberdade, com respeito às mulheres, às minorias e aos direitos humanos. Para ajudar a ilustrar o debate, a BBC fez uma comparação entre a constituição de 1971, que está suspensa, e o rascunho da nova constituição, que está sendo votado.

Os egípcios voltam às urnas no próximo sábado, 22 de dezembro, para votar na segunda e derradeira etapa do referendo sobre a nova constituição.

Egípcia deposita seu voto durante a primeira parte do referendo, realizado no último sábado (15). A segunda etapa acontece no dia 22 de dezembro. (AFP)

A guerra civil continua
Enquanto no Egito a transição democrática parece emperrada, na Síria ainda está longe de começar. Apesar de ter sido menos abordada pela mídia internacional nas últimas semanas, a guerra civil síria continua a todo vapor.

Entre os recentes acontecimentos no país, destacam-se o uso de mísseis por parte das forças de Bashar al-Assad contra os opositores, o aumento das dificuldades para sobreviver em Aleppo e o crescimento dos indícios de participação do grupo terrorista Al-Qaeda nas batalhas.

Além disso, a Coalizão Nacional de Revolucionários e Opositores Sírios, formada em outubro deste ano, tem trabalhado cada vez mais no sentido de unir os diferentes grupos em torno de uma única corrente com o objetivo de derrubar de vez o regime de Assad. A Coalizão ganhou tanta legitimidade no cenário internacional que já foi reconhecida formalmente por mais de 100 países e instituições de poder, entre eles a Grã-Bretanha, a França, a Turquia e o Conselho de Cooperação do Golfo. Na semana passada, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, também considerou como legítimo e elogiou o grupo de coalizão rebelde. Apesar das dificuldades e violência na Síria, muitos começam a enxergar uma saída do sangue e do fogo que têm tomado conta do país, como o colunista Lluís Bassets,  em seu artigo no El País.

Nesse sentido, na quarta-feira da semana passada, por exemplo, os EUA anunciaram uma ajuda humanitária de 14 milhões de dólares. Soma-se a isso o anúncio do Pentágono de que o país enviará 400 soldados e duas baterias de mísseis Patriot para a fronteira da Turquia com a Síria.  Tal ato pode até parecer simples, mas o envio de forças militares marca a primeira atitude oficial de intervenção norte-americana nos quase dois anos de conflito na Síria. A atitude do governo dos EUA tem o objetivo de diminuir a crescente tensão entre turcos e sírios e amenizar possíveis efeitos da guerra civil síria na sociedade turca.

Mais prestígio para o Hamas
Depois da mais recente tensão no conflito israelo-palestino e do reconhecimento da Palestina como Estado observador não-membro na ONU, o grupo fundamentalista Hamas mostra que tem adquirido mais prestígio e espaço na sociedade palestina. Na última quinta-feira (13), cerca de 5000 membros e simpatizantes puderam participar da comemoração do 25º aniversário do partido radical islâmico em um grande ato na cidade de Nablus, na Cisjordânia

O que chama a atenção é o fato de que esta é a primeira vez, desde 2007, que o Hamas tem a realização de um comíssio permitida na região da Cisjordânia, dominada pelo Fatah. A comemoração pode marcar, na verdade, a reconciliação entre os dois grupos, já que, há cinco anos, o Hamas expulsou violentamente os integrantes do Fatah da Faixa de Gaza.

Membros e simpatizantes do Hamas carregam as tradicionais bandeiras verdes durante ato na Cisjordânia em comemoração aos 25 anos do grupo (AP)

Segundo Mohammed Shtayyeh, membro do Comitê Central do Fatah e conselheiro do presidente da Autoridade Nacional Palestina – Mahmoud Abbas, a reabertura se dá porque “o Hamas acredita que venceu a batalha de Gaza e nós acreditamos que vencemos o voto da ONU. Quando você tem dois partidos vencedores, eles têm mais abilidade em concordar”.

Ainda na região da “Terra Santa”, o ministro das relações exteriores de Israel, Avigdor Lieberman, renunciou ao cargo na última sexta-feira (14). O anúncio vem logo após Lieberman ser acusado de envolvimento em um grande escândalo financeiro que teria durado mais de uma década.

Dicas
Para quem quer acompanhar tudo o que acontece na Síria e relembrar o que já ocorreu, o apanhado geral da BBC é uma ótima fonte. Além disso, o programa audiovisual Counting the Cost, da Al Jazeera, traz informações curiosas e números impressionantes em uma edição especial sobre a guerra civil na Síria.

Em seu blog pessoal, o correspondente da Folha de S. Paulo no Irã, Samy Adghirni, conta e explica os resultados práticos das sanções no cotidiano da população iraniana.

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