Mais do que uma partida de futebol

A derrota de 1 a 0 para o Corinthians na semifinal do Mundial Interclubes da FIFA está longe de ser a principal coisa que o Al-Ahly tem a lamentar neste final de ano. Para aqueles telespectadores e torcedores mais atentos, foi notável a presença de uma tarja preta no braço de alguns atletas do time egípcio. O sinal de luto tem feito parte do uniforme alvirrubro desde o dia 1º de fevereiro de 2012 e remete a uma das maiores tragédias da história do futebol mundial.

Na fatídica data, 74 pessoas morreram e ao menos 248 ficaram feridas. O palco do desastre foi o Port Said Stadium, onde era disputada uma partida do campeonato nacional egípcio. Após a vitória de 3 a 1 do Al-Masry, de Port Said, sobre o Al-Ahly, do Cairo, torcedores da equipe local, em maior número, invadiram o gramado, estimulando assim uma briga generalizada entre as duas torcidas. Durante o confronto, muitos foram alvejados com pedras, cadeiras e até facas. Ao mesmo tempo, outras dezenas de pessoas morreram prensadas contra as grades do estádio ou caíram das arquibancadas.

Visão panorâmica do confronto (Telegraph.co.uk)

Visão panorâmica do confronto (Telegraph.co.uk)

Na época, o episódio provocou fortes reações da sociedade egípcia e abalou a confiança em relação ao conselho militar que governava o país. Além de declarar três dias de luto oficial, o governo convocou várias reuniões emergenciais. A população, por sua vez, foi às ruas e multidões se reuniram na praça Tahrir para protestar contra a ação policial durante o jogo. Naquele período, o país se preparava para as eleições que, futuramente, elegeriam Mohammed Morsi como o primeiro presidente do Egito após a queda do regime ditatorial de Hosni Mubarak.

Além disso, o craque do time e estrela do futebol egípcio, Mohammed Aboutrika, chegou a abandonar o esporte durante alguns meses em decorrência da tragédia de Port Said. Retornou aos gramados apenas após ser convocado para defender o país nas Olimpíadas de Londres. O campeonato egípcio, por outro lado, ainda está suspenso e tem reinício previsto para o próximo domingo, 15 de dezembro.

Historicamente, as torcidas egípcias já carregam a fama de serem violentas. O episódio, no entanto, trouxe em si uma forte conotação política. Testemunhas e torcedores presentes no Port Said Stadium afirmaram que a polícia foi negligente em relação aos confrontos e que ela teria até mesmo estimulado as agressões aos fãs do Al-Ahly. As suspeitas justificam-se pelo fato de os torcedores do clube do Cairo terem se tornado um grupo fundamental nos movimentos e conflitos que tiraram Mubarak do poder em 2011.

No dia seguinte ao episódio, o correspondente da BBC no Cairo, Jon Leyne, afirmou que “o que ocorreu em Port Said talvez nunca seja totalmente esclarecido. Pode também ter sido um caso de incompetência da polícia, que perdeu sua força no último ano, com a revolução egípcia”.

Jogadores do Al-Ahly fogem enquanto torcedores invadem o gramado do Port Said Stadium (Reuters)

Os acontecimentos de Port Said, afinal, acabaram por se tornar uma motivação extra para os jogadores do Al-Ahly no Mundial Interclubes. A presença do time em uma competição como essa no mesmo ano de tal tragédia trouxe um significado especial às partidas no Japão. Após vencer os japoneses do Sanfreece Hiroshima por 2 a 1 nas quartas-de-final e perder para o Corinthians na semi, o alvirrubro egípcio agora enfrenta o Monterrey, do México, na disputa pelo 3º lugar. No elenco levado para a disputa do mundial, apenas um atleta não é egípcio – o atacante Dominique da Sylva, da Mauritânia.

Vale ressaltar que o Al-Ahly é o time mais popular do Egito, com mais de 20 milhões de torcedores. Além disso, o clube já venceu a Liga dos Campeões da África sete vezes e tem 35 títulos do Campeonato Egípcio. Esta é a quarta vez em que o time participa de um Mundial Interclubes organizado pela FIFA (ao todo, foram nove edições organizadas pela entidade máxima do futebol).

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