A volta do que já foi

O dia 29 de novembro foi histórico para a Palestina: a ONU elevou seu status de entidade observadora para Estado observador não-membro. A resolução foi aprovada com 138 votos dos 193 da Assembleia Geral, sendo nove votos contrários, entre eles EUA, Canadá, República Tcheca e Panamá. A antiga classificação era mantida desde sua entrada na ONU, em 1974, sob representação da OLP (Organização para Libertação da Palestina). Mesmo que ainda não conceda direito de voto, apenas de voz, o novo reconhecimento, semelhante ao do Vaticano, foi amplamente comemorado.

O pedido foi feito por Mahmoud Abbas, presidente da ANP (Autoridade Nacional Palestina), propositalmente no dia em se completavam 65 anos da primeira resolução da ONU sobre a partilha da região da Palestina em dois estados. Para Abbas, a solicitação seria a “única chance de salvar a solução dos dois Estados”, e significa uma vitória simbólica importante para a libertação nacional. Agora, já se fala que seja possível o acesso de palestinos às agências da organização e ao TPI (Tribunal Penal Internacional), tendo em mente uma eventual disputa jurídica contra Israel, nação acusada por eles de atos criminosos.

No entanto, para Ishak Khurj, membro da Frente Popular de Libertação da Palestina, a aprovação “é uma faca de dois gumes”. De acordo com reportagem da Opera Mundi, ele disse que “por um lado, a aprovação significa o reconhecimento mundial do Estado da Palestina, o que pode ser perigoso para os sionistas. Por outro, reconhece a solução de dois estados e das fronteiras de 1967, o que é [um conceito] falido”.

O reconhecimento de Estado, na verdade, se dá por outros países, e não pela ONU, ainda que este passo seja uma vitória diplomática para palestinos. Ao olhar de Ron Prosor, representante israelense, “essa resolução não serve para as negociações de paz com Israel, não diz nada sobre a segurança de Israel e não pede o fim do conflito.” Ele ainda alfinetou Abbas dizendo que parte do território palestino, a faixa de Gaza, não é sequer controlada por eles, e sim pelo grupo radical Hamas. “A verdadeira negociação não é em Nova York, mas sim em Jerusalém e em Ramallah”, concluiu.

Faixa de Gaza
Conflitos entre israelenses e palestinos também foram assuntos antes da solicitação e aprovação do novo título conquistado pela Palestina. Dias antes, em uma sequência de ataques violentos iniciada em 14 de novembro entre as forças militares de Israel e o grupo Hamas provocaram centenas de mortes. Quanto à carnificina, a imprensa chamou atenção ao fato de que o número de palestinos mortos e feridos, calculados em 160, era assustadoramente maior do que de israelenses  em torno de cinco.

Após oito dias de conflitos e muitas mortes, um cessar-fogo foi estabelecido, com participação crucial dos presidentes Morsi e Obama. Quanto às ações diplomáticas do egípcio, a secretária de Estado Hillary Clinton, o primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu e ainda o líder do Hamas Khaled Meshal, se pronunciaram em tom elogioso.

gaza American Jews Solidarity Against Zionism

Após o acordo, Binyamin Netanyahu afirmou que atingiu seus objetivos através da operação militar Coluna de Nuvem, cuja meta era “restaurar a tranquilidade ao sul do país e recuperar o poder de dissuasão frente ao Hamas”. Em retaliação, Khaled Mashal, disse que os inimigos se renderam às suas condições, e a ofensiva deles havia fracassado.

Artigo de opinião de Gilles Lapouge no Estadão destaca, entre outros pontos, o papel importante do Egito nas negociações. “Claro que na época de Hosni Mubarak, Egito e Israel preferiram seguir o caminho da paz. No entanto, Mubarak caiu e o novo dirigente do país, Mohamed Morsi, pertence à Irmandade Muçulmana, movimento islâmico de onde surgiu o Hamas”.

E qual a posição do Brasil em relação a essa pauta mundialmente debatida? Na época dos conflitos, Dilma havia se manifestado da seguinte maneira: “Só haverá paz na região se houver dois Estados legitimamente consolidados [Israel e o Estado Palestino]”. Para Clóvis Rossi, colunista da Folha, a declaração ficou em cima do muro e “a voz do Brasil é baixa demais”.

É razoável pensar que não há apenas um vilão nessa história. Em sua coluna na Carta Capital, José Antônio Lima alerta que nenhum é flor que se cheire: “nesta dinâmica maléfica, o Hamas e a direita israelense alimentam um ao outro, criando a percepção de que a guerra é inevitável”.

Realmente, acompanhando um conflito que perdura há décadas, e envolvendo líderes tão radicais de ambos os lados, é difícil acreditar em um momento de paz. A guerra não é mesmo deste mês ou do anterior. Nesse sentido também aponta artigo do The Guardian. A região da Faixa de Gaza, lar de 1,6 milhões de pessoas, fora governada por judeus, romanos, egípcios e desde de 2007 por Hamas. É evidente que trocas de liderança em uma região já fadada por interesses internacionais e rixas religiosas só poderiam deixar consequências destrutivas. Ou não? Um infográfico especial sobre Gaza da BBC ajuda a clarear este pedacinho de terra tão comentado e ainda tão obscuro.

Egito
A praça Tahir no Egito voltou a receber protestos que envolvem a autoridade política. Se há quase dois anos, em janeiro de 2011, a personalidade alvo era o então ditador Hosni Mubarak, que meses depois acabou de fato deposto, desta vez é o atual presidente Mohamed Morsi – exato, aquele eleito democraticamente após a primeira eleição direta no país em 40 anos. Foi lá, na mesma Praça da “Libertação” que milhares de pessoas se reuniram no dia 23 de novembro com o ímpeto de pressionar o presidente a cancelar emendas que, de acordo com reportagem do Estadão, “ampliavam seus poderes, concediam imunidade a maioria parlamentar islâmica e reabriam investigações sobre abusos cometidos pelo regime de Mubarak”. Na sexta-feira dia 30, ainda havia manifestantes no local. Um dia depois, 1° de dezembro, foi a vez de mais de 100 mil manifestantes mostrarem seu apoio a Morsi, que prometeu nova Constituição, gritando “o povo quer a aplicação da lei de Deus”. Desde o início dos protestos, quatro pessoas morreram e mais de 900 ficaram feridas.

A oposição declarou que os três decretos criados atribuíam “poderes ditatoriais” ao presidente. Um membro da oposição disse que “é diferente uma decisão revolucionária e uma decisão ditatorial”. No Twitter, o vencedor do Nobel da Paz El Baradei afirmou que Morsi “declarou a si próprio o novo faraó do Egito”. Receosa quanto aos protestos, a ONU pediu que Morsi repensasse a situação. Para Navi Pillay, Alta Comissária para os Direitos Humanos, as medidas vão contra o pacto das Nações Unidas sobre “o direito de recorrer, de acesso à justiça e garantias a independência do poder Judiciário”.

tahir 1

Em contrapartida, o porta-voz da presidência, Yasser Ali, disse que a decisão está dentro dos limites constitucionais, enquanto Mahmoud Ghozlan, porta-voz da Irmandade Muçulmana (o partido do presidente), defendeu que se trata de uma maneira de “limpar as instituições do Estado” e acabar com “infraestrutura do antigo regime”. O próprio Morsi deixou claro que a medida, apenas temporária, tem a intenção de manter a estabilidade do país.

Esta onda de protestos ocorre em um período em que a nova Constituição do Egito, primeira após a queda do ditador Hosni Mubarak, é muito esperada. Entre manifestações a favor e contra Morsi, este agendou para o dia 15 de dezembro o referendo da constituição. Ela foi aprovada pela Assembleia Constituinte e deverá substituir a Lei Magna egípcia, que esteve em vigor durante a era Mubarak. Alguns pontos importantes em discussão são: o uso do termo “sharia” no texto, a condição das mulheres e liberdades públicas.

De acordo com o El Pais, Morsi aproveitou a renovação de popularidade graças ao êxito diplomático por ter intermediado uma trégua em Gaza entre Israel e o grupo Hamas, para realizar o feito.

Dicas

Artigo de opinião de Mark Leonard em El Pais sob o título (em tradução livre do espanhol) Um mundo novo e Israel de sempre.

Ahmadinejad declarou que Israel é infantil por querer atacar o Irã, e as potências ocidentais estão querendo retomar as negociações sobre o programa nuclear. (Estadão via Reuters)

O último programa “Inside Story”, da Al Jazeera, teve como tema a narrativa midiática dos EUA na cobertura dos conflitos na Faixa de Gaza. Tradicionalmente, o país defende os bombardeios de Israel. No entanto, a opinião pública na internet e até o movimento Occupy pesam para o outro lado. Cada vez mais a palavra de ordem da mídia tem sido “equilíbrio”.

Matéria do Jornal Nacional traz cenas dos protestos do dia 1° de dezembro no Cairo, em apoio a Morsi.

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