O que você sabe sobre o Iêmen?

Sabemos que Iêmen é o pequeno país cenário do filme Salmon Fishing in Yemen, que, inclusive, nos rendeu uma resenha. Também o conhecemos dos noticiários do mundo inteiro, já que nos últimos anos se tornou um reduto da Al Qaeda. Mas o que sabemos sobre sua geografia, população e história?

Vamos começar pelas coordenadas geográficas. O pequeno país está a sudoeste da península Arábica e é banhado pelo golfo do Áden. Faz fronteiras ao norte com a Arábia Saudita, a leste com Omã e a oeste com o Mar Vermelho. A área total de 527.968 m² também abrange as ilhas de Perim e Kamaran, ao extremo sul do Mar Vermelho; de Socotra, a maior delas, na entrada do golfo de Áden; e Kuria Muria, próxima ao litoral de Omã.

O Iêmen é uma exceção na península Arábica por dois fatores. Primeiro, por apresentar terras férteis em meio ao deserto que domina o restante da região – característica que lhe rendeu, na visão dos antigos romanos, o apelido de “Arabia Felix”. O segundo motivo vem dos deploráveis indicadores sociais: o IDH apresentado em 2010, de 0,439, é considerado baixo e destoa com os demais sete países da península.

População e economia
Historicamente, o Iêmen é uma nação pobre. Hoje, sua economia é muito dependente da produção e exportação de petróleo, chegando a mais de 90% de toda a renda, mesmo com reservas bem menores que a dos vizinhos. Já a agricultura, producente graças às fontes de água relativamente abundantes, tem como principais produtos o café, o algodão, frutas, cereais e qit, uma erva alucinógena popular entre os iemenitas. Este perfil rural envolve também a população, estimada em 24 milhões em 2011, que vive sobretudo dessa atividade. A economia não muito próspera passou por um episódio histórico que contribuiu para decliná-la ainda mais: a expulsão de cerca de 850 mil trabalhadores iemenitas da Arábia Saudita durante a Guerra do Golfo, em 1990, em represália ao apoio que o governo do Iêmen havia dado ao ditador iraquiano Saddam Hussein.

O país é essencialmente árabe e islâmico. Quase toda a população (cerca de 99,1%) é muçulmana, e a língua oficial é o árabe. Se, por um momento, o povo iemenita parece um bloco homogêneo, sua longa e conturbada história derruba essa crença. O território foi fracionado desde os primeiros séculos por vários Estados, com inúmeras dominações estrangeiras e diferenças ideológicas. Embora o desejo de unificar o país tenha ganhado impulso a partir de 1972, a unificação só ocorreu de fato em 1990, graças, sobretudo, ao fim da Guerra Fria e à desagregação do mundo comunista.

Dois Iêmens
Nas últimas décadas, enquanto o norte do atual Iêmen tinha inclinações capitalistas e pró-ocidentais, o sul era alinhado à União Soviética. O Iêmen do Norte, de maioria xiita, fora ocupado pelos turcos otomanos até o fim da Primeira Guerra Mundial, mesmo após passar longos séculos sob controle de persas, egípcios e ingleses. Por sua vez, o Iemên do Sul foi também dominado por turcos e, a partir de 1839, por ingleses. A região conquistou a independência em 1967 – mesmo ano da Guerra dos Seis Dias, entre Israel e países árabes vizinhos -, com a Frente da Libertação Nacional no poder. Logo depois, a Frente se tornou Partido Socialista do Iêmen e instaurou um governo comunista.

Mapa político do Iêmen, com limites da antiga divisão entre Norte e Sul.

A unificação e a quarta peça do dominó
Depois de um golpe de estado em 1962, que levou militares ao poder por vários anos, o coronel Ali Abdullah Saleh tornou-se presidente. Seu mandato durou até dezembro 2011, quando assinou um acordo para transferir o cargo ao vice-presidente Abdeabuh Mansur Hadi. Saleh cedeu por conta de pressões nacionais e externas: foi o quarto chefe de estado a cair com a Primavera Árabe.

Em 1988, quando a primeira eleição direta do Norte aconteceu, Saleh venceu com 96% dos votos – mesmo já estando no poder dez anos antes disso. Após a unificação, como já era esperado, ele foi mantido no cargo. Aplicou a sharia, a lei islâmica, como base de toda a legislação do Estado, e manteve o sul em posição inferior.

O esquema de governo conciliado funcionou em um molde que nos lembra – ainda que muito brevemente – a política café-com-leite da República brasileira, pois parte da população se revoltou e inúmeras mortes ocorreram quando o presidente indicou, em 2006, um primeiro-ministro do Norte, ao invés de um do Sul. Além de outros protestos separatistas, marcaram o governo de Saleh as denúncias de corrupção e o alinhamento aos Estados Unidos na Guerra ao Terror – tropas militares de Bush treinaram as Forças Armadas do Iêmen, em alerta para a presença marcante da rede Al Qaeda no país.

Ali Abdullah Saleh, presidente deposto depois dos protestos de 2011.

Aliás, em 2009, com um incidente em Detroit envolvendo terroristas da Al Qaeda fixados em território iemenita, países do Oriente Médio e do G8 anunciaram a criação do Grupo de Amigos do Iêmen – e, assim, os Estados Unidos intervieram na situação. Desde 1992, ao menos 60 ataques da Al Qaeda atingiram o Iêmen, uma mistura de ataques surpresa e muitas mortes. Importante notar que a ação da rede é facilitada pelas extensas faixas fora do controle do Estado desfalcado, sob domínio de tribos armadas.

O Iêmen ainda é o país bastante noticiado por ataques da Al Qaeda. E ainda é aquele que ficou marcado em 2011 pelos protestos na capital Sanaa contra o então presidente Saleh, como podemos relembrar nesta galeria de fotos da Folha de S. Paulo. Mas também pode ser um oásis em meio ao deserto árabe, cortado por uma cadeira de altas montanhas férteis e banhada pelo mar Vermelho.

Fontes de pesquisa 
Jornal O Estado de S. Paulo – Especial Primavera Árabe.
Enciclopédia Barsa, Volume 9.
Almanaque Abril 2011.
Cia World Factbook.
Revista The Economist.
 Transparency Internacional.
Revista Atualidades, Editora Abril, 1° semestre de 2010.

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