Por trás do caos em Gaza

O nome Operação Pilar de Defesa é, no mínimo, contraditório. Os ataques militares entre forças israelenses e o grupo Hamas, que hoje completam seis dias, provocaram mais de 100 mortes de palestinos e três de israelenses. Mais de 900 feridos de um lado, dúzias de outro. A força de defesa de Israel admitiu hoje que a morte de onze pessoas da mesma família ontem, a maior baixa em um único acidente desde quarta-feira, foi um erro. Faltou admitir o que mais está atrás do caos na Faixa de Gaza.

O começo do confronto pode ter sido com a morte de Ahmed al-Jabari, líder da brigada al-Qassam, do grupo militar – e terrorista, segundo Israel – Hamas, em 15 de novembro. Ou pode ter sido no dia 8, uma semana antes, quando uma investida militar de Israel matou uma criança palestina, seguido dois dias depois de um ataque palestino a um veículo militar. Ou pode vir dos inúmeros conflitos desde tempos de hebreus e bizantinos. O começo da conversa não faz muito sentido.

Sequer têm nexo certas declarações por parte de Israel. Primeiro, o ministro de inteligência do país, Dan Meridor, exige um cessar-fogo palestino antes de qualquer negociação a longo prazo.  Só que Jabari foi morto alguns dias depois de uma trégua informal, com Egito como intermediador, fato confirmado no sábado, dia 17 de novembro, por Mohammad Mursi, presidente egípcio. Além disso, Jabari estava em contato com Gershon Baskin, negociador da paz que havia entregado recentemente uma proposta de cessar-fogo de longa duração.

As forças de defesa israelenses afirmam que miram em lançadores de foguetes subterrâneos, túneis, bases de treinamento, postos de comando e estoques de armas. Tais “ataques cirúrgicos”, porém, não são exatamente refletidos no número altíssimo de morte de civis  – ou nos prédios com mídias internacionais e parceiras do Hamas destruídos. “Mas quando usam civis como escudos humanos, qual a nossa escolha? Se eles posicionam foguetes em áreas populosas, não devemos ser culpados pelo resultado”, diz Moshe Yaalon, ministro de assuntos estratégicos israelenses.  Já Sam Kiley, correspondente para Sky News, explica que é difícil saber quais locais estão sendo usados pelo Hamas e que serão atingidos, até porque a organização é ao mesmo tempo governo e milícia.

No fim das contas, restam algumas suspeitas dos reais motivos por trás da ofensiva de Tel Aviv. As eleições em Israel acontecerão em dois meses, e uma vitória sobre o vizinho melhoraria a imagem do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, prejudicada pela aliança com o ultra conservador Avigdor Libermann. (Uma guerra para ganho eleitoral também teria sido conduzida por Shimon Peres contra o Líbano, em 1996, e por Olmert-Livni-Barak contra Gaza, em 2008).

O aumento populacional em Gaza preocupa Israel. O reconhecimento internacional como Estado não-membro da Palestina, a ser discutido na ONU neste mês, preocupa Israel – e, segundo o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, o ataque israelense veio com o objetivo de minar seus esforços nessa direção. O maior apoio à causa palestina de países ditos aliados dos EUA, como Egito, Turquia e Tunísia, preocupa Israel. A trégua, em processo de discussão hoje no Egito – com a presença do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon –, é um momento delicado. O caos em Gaza e a repressão escancarada já deveriam, faz tempo, ter deixado de ser essa fumaça incerta. As cinzas vão mostrar o que restou.

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