Oliveiras, um muro, uma ideia

Pelas imagens caseiras, Budrus poderia ser um daqueles filmes de família gravados na década de 1990. O que o vemos na tela, no entanto, é uma realidade bem distante da nossa. Algum conhecimento prévio sobre o assunto é quase necessário, mas, de qualquer forma, é um documentário que convence – nos convence a comprar uma causa.

Budrus é um vilarejo de 1,5 mil habitantes na Cisjordânia, na Palestina.  A sobrevivência vem do cultivo de oliveiras. Porém, mais do que uma fonte de renda, as árvores guardam a identidade e a história do povo. E é na tentativa de salvá-las, as oliveiras e sua representatividade, que  Fatah, Ramás e israelenses se unem em um movimento sem armas, sob os olhos atentos da mídia e da comunidade internacional. A vila foi a primeira a realizar manifestações periódicas e pacíficas, ideia que logo se espalhou pelas outras comunidades vizinhas.

Desde 1967, com a vitória de Israel na Guerra dos Seis Dias, o país tomou o controle da Cisjordânia. Em 2002, Israel deu início a construção do Muro da Cisjordânia, que separa territórios israelenses e palestinos sob a alegação de que era necessário proteger os civis de ataques palestinos. O plano de traçado do muro, no entanto, não respeitava a Green Line (demarcação de territórios após a Guerra de 1948 entre Israel e Egito, Jordânia, Líbano e Síria) e invadia territórios de vilas palestinas, chegando a cercar seis delas por completo.

De Budrus, o Muro levaria 300 acres e 3000 oliveiras, além de dividir o cemitério e passar a 40 metros da escola. A brasileira Julia Bacha registra, então, as 55 manifestações pacíficas realizadas durante os 10 meses em que o povoado lutou contra a construção do Muro em 2003. Os acontecimentos, contextualizados através de mapas, legendas explicativas e imagens de arquivo, aparecem bem amarrados aos depoimentos dos personagens.

Conhecemos Ayed, o líder da comunidade que organiza as manifestações e, por fim, acaba se envolvendo no maior movimento de protestos não violentos que se espalha para as demais vilas palestinas. Conhecemos também sua filha, Iltezam, que cresceu visitando o pai na prisão – o ativismo de Ayed o levou a seis anos de detenção e outros três vivendo foragido. Talvez por isso, seja dela a iniciativa de envolver as mulheres nos protestos pacíficos.

Em um conflito polarizado como o israelo-palestino, é difícil não escolher um lado. Portanto, é louvável que o filme tenha as vozes de líderes palestinos e de soldados israelenses. No entanto, embora a opinião geral seja a de que Budrus caminha quase na imparcialidade, já que tem essa veia jornalística de ouvir as duas versões da história, a verdade é acreditamos em uma delas – talvez não pela forma de construção do documentário, que não é de maneira alguma apelativo, mas pelos fatos em si.

As oliveiras não estão em absoluto próximas de nós, mas, de repente, aquelas pessoas ameaçadas e unidas, podem nos parecer parentes registrados em um vídeo caseiro.

Bastidores
Julia Bacha é brasileira, mas tem o pé no mundo árabe por causa da mãe libanesa. Além da origem, sua crença de que o cinema pode mudar a realidade explica o seu engajamento. Julia trabalha para a Just Visions, organização que apoia projetos pacíficos de árabes e israelenses que lutam pelo fim da ocupação e dos conflitos na Palestina.

Além de diretora, Julia é produtora, roteirista, editora e câmera de Budrus.  Em entrevista para o Estado de São Paulo, ela declarou que “a mídia dá muito espaço para a violência, quando é o movimento civil e desarmado que está promovendo a grande revolução pela paz no Oriente Médio”.

Budrus, lançado em 2009, chegou ao Brasil em DVD em outubro de 2011. O documentário foi bem avaliado pela crítica internacional e venceu nove prêmios internacionais, segundo o IMDb. “Budrus ficou com um honroso segundo lugar na preferência do público no prestigiado Festival de Berlim, no ano passado. Na estreia americana, no Festival de Tribeca, em Nova York, foi ovacionado por 5 minutos, ganhou menção especial e fãs como o documentarista Michael Moore e o ator Robert de Niro”, escreveu Ana Carranca no Estado de São Paulo.

Budrus, 2009
Direção: Julia Bacha
Confira a página do filme.
Confira a página do filme no IMDb.

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